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Salim Mattar tem a receita de um bom governo.

A Petrobrás está, novamente, na berlinda. Agora, pelo aumento do preço dos combustíveis. Lula culpa Bolsonaro, que, para se livrar da culpa, substituiu o Ministro das Minas e Energia. O novo ministro, numa atitude de defesa prévia, promete privatizar a empresa. O Presidente sinaliza que topa, quando nunca topou. Ele diz que quer, porque, desse modo, recupera parte do discurso que fez em 2018, com bom resultado. Mas, no Brasil consciente, sabe-se que, tendo mais 4 anos ou não, o Presidente Jair Bolsonaro não realizará a proeza. A menos que…

Para entender o motivo, voltemos no tempo. Visitemos o dia quatro de janeiro de 2021. Vamos ao “Direto ao Ponto” da Jovem Pan News. Naquele dia, cinco jornalistas entrevistaram Salim Mattar e ele, ao esclarecer a razão de ter deixado o governo, mostrou as causas da enorme dificuldade que tem o projeto de privatização para caminhar minimamente no Brasil. 

Sintetizei as palavras do Salim: falta vontade política e convicção, tanto no Poder Executivo, como e, principalmente, no Congresso Nacional. Também na maioria do povo brasileiro, que não identifica uma relação de causa e consequência, entre o Estado grande e os problemas que enfrenta como sociedade. 

Na entrevista, Salim Mattar dividiu o povo brasileiro em duas categorias distintas: “cidadãos de primeira categoria e cidadãos de segunda”. Entre os de primeira categoria ele citou os 12 milhões de servidores públicos. Entre os de segunda, os 30 milhões com carteira assinada e 14 milhões de desempregados. 

Ora, quarenta e quatro milhões não seriam suficientes para conquistar uma mudança? Sem dúvida, mas ocorre que os cidadãos de primeira categoria  vendem bem o peixe que os alimenta: O ESTADO GORDO! Os que estão classificados na segunda categoria ou não têm quem consiga mostrar-lhes a relação de causa e consequência entre o Estado opressor e a sociedade faminta, ou sustentam-se nos privilégios que recebem dos cidadãos de primeira categoria. 

Falta quem lidere o processo de conscientização no meio do povo que soma maioria suficiente para enquadrar os servidores do Estado Brasileiro, sejam eles eleitos, concursados ou beneficiados com o dom da bajulação. 

Nesse sentido, o discurso do Salim Mattar está pronto. Ele questiona o Congresso Nacional, que pode ser quase totalmente trocado em outubro e defende a elaboração de uma nova Constituição, bandeira que, Salim lembra ser também uma proposta do Modesto Carvalhosa. 

Salim Mattar não deixou dúvida: o presidente pode querer privatizar, o ministro querer mais ainda e, enquanto o Congresso Nacional não quiser, nada acontecerá. Ele deveria dizer isso aos quatro ventos, todos os dias e de todas as formas, para que todos os liberais entendam, por definitivo, que é hora de aproveitar a oportunidade da eleição do Congresso Nacional para enquadrar o Estado Brasileiro. 

A entrevistadora Denise Campos de Toledo, de certo modo, sustentou a afirmação de Salim Mattar, ao citar a vontade política do Congresso Nacional no tempo de Fernando Henrique Cardoso, que conseguiu proezas na privatização da telefonia, da Vale do Rio Doce e da CSN…”Num tempo”, disse ela, “quando ainda não se tinha toda a aversão às empresas estatais criada pela corrupção desenfreada e pela operação Lava-Jato”. Denise  contrapôs o argumento na relação do Presidente Jair Bolsonaro com a privatização, ao citar o caso CEAGESP, que eu comentei quando ocorreu: https://www.aquitudoepolitica.com.br/?s=CEAGESP 

É horá de falar e pregar em todos os lugares e para todas as pessoas, a importância do voto para a composição do Congresso Nacional. Salim Mattar fez uma previsão que se pode antecipar. Disse ele que em 2026, teremos uma bancada de deputados federais e senadores formada com um número suficiente de liberais para mudar o jogo. É possível fazer isso em 22! Eu acredito! 

Boa semana. 

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O eleitor já decidiu nacionalizar a eleição.

Na dúvida. Sempre na dúvida

O eleitor já decidiu nacionalizar. 

O governador Cláudio Castro está em O Globo na arrancada das entrevistas com todos os candidatos a governador do estado, pelo menos aqueles que conseguiram vencer a cláusula pétrea de uma campanha eleitoral: ter um partido político. Isso não é algo fácil, porque os partidos têm dono, o dinheiro dos partidos está nas mãos deles e o tempo de uso da TV e Rádio também. Então, eles e elas decidem quem será candidato. E quem entre os candidatos, será competitivo. 

O editor da entrevista com Cláudio Castro compôs a chamada com uma frase do entrevistado, como manda o figurino. Disse ele: “Não quero nacionalizar a eleição do Rio”, um jeito matreiro de dizer que ele não está plenamente alinhado com o candidato a presidente do partido dele, Jair Bolsonaro. 

O governador está alinhado com todos e com nenhum, uma prática antiga de comunicação política, mas, cada vez menos convincente, porque os eleitores já andam saturados desse comportamento sem personalidade. 

O governador não quer assumir uma posição na relação da campanha dele com os candidatos à presidência, porque quer os eleitores de todos eles e acredita que desse modo poderá alcançá-los. 

Quando questionado sobre os apoios políticos que abraça, com tudo e com todos, Cláudio Castro mostrou onde é que a pancada nele dói mais. Esperneou e bateu duro nos adversários diretos, para dizer que na campanha do Freixo estão os saqueadores da Petrobrás e lembrar que o candidato Rodrigo Neves esteve preso.  

Cláudio Castro foi arrogante ao dizer que Wilson Witzel teria caído antes se ele tivesse assumido a posição de tirá-lo do poder. E, reafirma a personalidade ao destacar que as alianças que fez para governar não serão as alianças que adotará ser reeleito.  Desse modo, ele desqualifica quem veio com ele até aqui e faz isso da pior forma: não nomina e, portanto, generaliza. 

Cláudio Castro não quer, mas é evidente que o eleitor, na hora do voto, levará em conta a opção nacional. Isso está bem claro. Na hora do voto, o eleitor fará opção pelos candidatos vinculados ao candidato dele à presidência da república. 

Em seguida, Cláudio Castro entrou num campo no qual ele não deveria se aventurar. Ele se diz liberal por ter privatizado a CEDAE e se diz de centro-direita, porque distribui café da manhã para os pobres e vai mais longe – corajosamente ou irresponsavelmente – vai mais longe para definir as políticas ambientais como temas associados à esquerda. Uma salada que mistura legumes, frutas, coco, carne linguiça e chiclete. 

O tema principal foi pouco abordado por quem tem, com exclusividade, a obrigação constitucional de cuidar da segurança pública. O entrevistador isolou o tema no episódio do Jacarezinho e Cláudio Castro aceitou a pauta. 

“O meu governo não celebra a morte de ninguém, mas, quanto ao Jacarezinho, só havia um inocente: era o policial que acabou morto, deixando viúva e filho”. Ele julgou e sentenciou, de imediato, sem processos, sem questionar motivos, sem contraditório ou ampla defesa. Igualzinho ao que fazia seu ex-chefe, Wilson Witzel.  

Enfim, tudo dentro do esperado. As palavras ditas com os cuidados adquiridos, certamente, em tensas reuniões de treinamento. 

O diabo é que campanha tem adversários e quando os candidatos não estão atentos para isso, o debate pode desandar. 

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O que é uma eleição?

Eleição é escolha. O eleitor, colocado diante das informações sobre os candidatos, decide qual deles receberá o seu voto. As campanhas eleitorais têm o propósito de oferecer aos eleitores as informações para que ele decida. Colocada a questão deste modo, a primeira percepção é de ser um processo racional e ele não é. Por isso, os resultados surpreendem até mesmo os institutos de pesquisa a cada eleição. 

No Brasil, muita gente diz que a eleição de 2018 foi um fenômeno, porque os resultados surpreenderam e, para alguns, até assustaram. Para essa gente, existe uma dúvida sobre a próxima eleição: “O fenômeno se repetirá?”. Mas, o que de fato aconteceu em 2018 no Brasil? Pouca coisa de diferente do que aconteceu em outros lugares do mundo: a eleição do inesperado.

Ora, quando se quer analisar o resultado de uma eleição, necessário se faz considerar todos os seus termos e isso só é possível observando-se todas as fases de uma campanha. Em 2018, o resultado é comparável a uma ressaca no mar, que acontece quando fortes ventos entram em contato com a superfície dos oceanos e impulsionam, com força, as águas na direção da orla marítima. 

Os ventos começaram a se formar no Brasil em 2013 com a população nas ruas, descolando-se da política, que segue caindo em descrédito ao longo dos anos. Nas eleições de 2018, os ventos ganharam força e velocidade a ponto de jogar na orla, um número expressivo de candidatos inexpressivos e alguns inesperados. 

A mesma ressaca aconteceu em outros lugares do mundo, em especial nos EUA, com a eleição de Donald Trump. O jornalista francês sediado na Itália, Giuliano da Empoli, identificou o fato e escreveu “Os Engenheiros do Caos”. 

Nele, o autor mostra um descolamento da sociedade do ambiente da política, estimulando movimentos como o “Movimento 5 Estrelas”, na Itália, que deu vida a Giuseppe Conte, como Primeiro-Ministro e elegeu Boris Johnson, Trump, Jair Bolsonaro e outros tais pelo mundo afora. 

As redes sociais criaram novos profissionais de comunicação, gente com capacidade para produzir conteúdo contundente e distribuí-lo com velocidade. Os algoritmos cuidaram de aprisionar  eleitores e candidatos em tribos específicas. É uma seleção prévia. Os candidatos falam só com quem tem interesse de ouví-los e quem os ouve, é levado a odiar gente de outras tribos. 

Quem lê “Os Engenheiros do Caos”, ou outros materiais sobre campanhas eleitorais modernas, pode ser levado a acreditar que, de fato, há um fenômeno totalmente novo na comunicação política. Há novidades, sem dúvida, mas nada totalmente novo. Nova é a velocidade e a fúria com que os conteúdos chegam à orla onde estão os eleitores. 

Faz-se campanhas diferentes. Eleições não. Os eleitores permanecem decidindo as eleições com base nos critérios de sempre. Votam naqueles candidatos que melhor se identificam com eles, que falam o que eles querem ouvir. E não há racionalidade que convença! Emoção, sim. As redes carregam emoções, como fez a imprensa tradicional com exclusividade. 

O eleitor escolhe pela simpatia e rejeita pela antipatia. Na simpatia e na antipatia não estão previstas as qualidades e competência dos candidatos para fazerem o que prometem fazer. 

Será sempre assim? Será, porque assim sempre foi. Nunca foi diferente. As redes só organizam “o cadastro” para colocar cada um no seu quadrado e fazer com que gente de quadrado diferente seja combatido. Deram velocidade e efetividade à comunicação. 

A TV e o rádio perderam poder numa campanha? Não, porque, para não perderem, uniram-se às redes, que repercutem as notícias, para dar-lhes a leitura que interessa a cada tribo. O conteúdo que sai da TV e do rádio é triturado na rede, traduzido na língua de cada tribo para produzir as emoções que conquistam o voto. 

Haverá uma nova ressaca em 2022? Quem sabe? Na vida dos mares já é possível prever quando elas acontecerão pela leitura correta da altura das ondas, da meteorologia, da pressão atmosférica, das correntes marítimas e etc. Com os instrumentos corretos, entregues a bons estrategistas, é possível, sim, prever que o mar estará calmo ou turbulento, mas saber quem será levado por ele até a orla é bem difícil. 

O ser humano, ao contrário dos ventos e das ondas do mar, é sempre imprevisível.

Por Jackson Vasconcelos

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Debate decide?

Entre todos os bons debates políticos que há como referência, o primeiro ocorrido na TV americana entre Nixon e Kennedy é o mais estudado, pelas lições no campo da imagem e conteúdo. Nixon chegou ao estúdio com uma vantagem de seis pontos percentuais na pesquisa de intenção de votos. Após o debate a diferença diminuiu aos poucos, mas com rapidez, até ser revertida a favor de Kennedy e de lhe dar a vitória. Nixon passou todo o tempo preocupado com o adversário. Kennedy falava para as câmeras como se falasse com o eleitor. 

A imagem física deu vantagens ao Kennedy. Tanto é que, após o debate, as pesquisas identificaram um fenômeno: quem ouviu pelo rádio deu vantagem a Nixon que, sem dúvida, tinha mais experiência e vigor com as palavras. Quem assistiu pela TV considerou Kennedy muito melhor. Já fiz vários comentários e análises sobre este debate. 

Os debates têm importância numa campanha, mas o resultado de uma eleição se dá pelo conjunto da obra, que começa no momento em que o candidato decide concorrer. Há os prazos legais, é verdade, mas que a política não respeita, porque os prazos legais estão no campo da racionalidade e campanha é sentimento, vontade, determinação. 

Se o candidato decidir muito tarde, terá que correr mais que os adversários; se decidir muito cedo, terá tempo para planejar com capacidade de avaliar cada passo. O aviso ao público se dá em tempo e com resultados diferentes, a depender da estratégia traçada pelo candidato. A ocasião dele ou dela compartilhar com outras pessoas o desejo de disputar será melhor aproveitada se considerada como estratégia. E, por ser uma decisão estratégica de um exame  com base nos conceitos de oportunidade e ameaça. O tempo certo de compartilhar definirá o tempo que se tem para planejar a campanha. 

A vontade de ser cria o discurso e ele, o debate, que se dá quando a mensagem do candidato, peça fundamental numa campanha, faz o adversário reagir. Sem a reação do adversário, não existe debate e o discurso segue o impulso que lhe deu o seu autor e pode passar pelo eleitor sem ser notado. Sabe-se que o eleitor notou o discurso, quando o adversário reage. Eu não considero como debate uma discussão ou troca de opiniões entre candidatos. Para mim aí se terá uma conversa, que pode ser agradável ou desagradável, para um ou para todos os candidatos. Para ser um debate a troca de opiniões e palavras deve provocar reações entre os adversários a ponto de elas serem capturadas pelos eleitores e transformadas em voto ou negação. 

O confronto com efetividade pode ser entre as imagens, ideias, opiniões, acusações, apoiamentos e, de forma mais fria, propostas. O relevante é saber que a qualidade e o teor dos debates como elemento de convicção é decisão do eleitor. Por isso, perde tempo o candidato que debate com os adversários se não compreender que eles são veículos, plataformas, simplesmente, que precisam atingir os eleitores pelas reações dos adversários. 

Para um estrategista o conceito é relevante, decisivo, quando ele prepara um candidato para um debate. Uma conversa fria, sem provocar reação dos adversários presentes e mesmo ausentes, não anima os apoiadores nem conquista novos. Ou seja, o candidato que chega aos debates com vantagem nas intenções de votos deve ficar na “retranca” e só oferecer energia ao debate se perceber que perde posições na imagem que tem com o eleitor. 

Preparar um candidato para um debate não é trabalho fácil, que se transforma numa rotina, porque cada debate é um novo jogo e pede novas estratégias. O candidato deve entrar em campo com uma meta objetiva e tendo um objetivo como meta. Digamos que esse objetivo seja se tornar mais conhecido, então, ele precisa ser contundente, ter presença forte. Mas, ser conhecido como o quê? Como um bom administrador público ou como um agente conservador, liberal? Que tema deve ser melhor aproveitado? 

Os debates relevantes para a história e estudos são os das campanhas presidenciais, mas há debates que aconteceram em outros tipos de campanha que ensinam bastante. Iniciei a prosa com um debate entre Nixon e Kennedy, nos EUA. A trajetória política de Richard Nixon tem muito a ensinar estrategistas. Ele fez uma carreira rápida até a Vice-Presidência da República. Perdeu a eleição para Kennedy, em seguida, se candidatou a governador da Califórnia, seu reduto eleitoral, e perdeu. A imprensa americana deu-lhe como morto. Se morreu, ressuscitou como Presidente da República ao vencer Hubert Horatio Humphrey.  E nessa estrada venceu outros debates. 

As campanhas presidenciais no Brasil aconteceram na TV, a partir de 1989, quando a sociedade conquistou o direito de eleger novamente os presidentes. O primeiro debate aconteceu nos estúdios da TV Bandeirantes, na abertura da campanha, no dia 7 de julho. Marília Gabriela moderou. Foi um debate rico, mas que não atendeu ao avisado pela moderadora: “Tem o objetivo de esclarecer os eleitores quanto às propostas e aos programas de governo dos candidatos”. A primeira experiência se estendeu no tempo: ficaram as frases de efeito, as provocações e as passagens mais engraçadas. 

Voamos no tempo em tecnologia, qualidade de comunicação e imagem e chegamos à eleição de 2018, quando houve uma reviravolta nos prognósticos das campanhas. A Bandeirantes saiu na frente, novamente, e, em razão da pandemia, ficou isolada na realização de debates. A tecnologia ofereceu ao eleitor a oportunidade de participar diretamente. A TV montou uma sala para pesquisa digital on-line. Novamente, prevaleceu a capacidade do candidato de, ao provocar os adversários, produzir fatos e conquistar eleitores.

Por Jackson Vasconcelos

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No jogo político, a imprensa tem lado

Um erro bem comum na política é enxergar a imprensa como uma arma do demônio e, nas campanhas, como instrumento de notícias imparcial. A imprensa, na política e nas campanhas, é um agente político. Vi políticos e candidatos acreditarem-se com vantagem, porque estariam protegidos pela boa relação com a imprensa. Mas, eles, em algum momento, decepcionam-se e aborrecem-se. 

A imprensa, na política e nas campanhas só tem boa relação com os fatos que conseguem audiência e se o ambiente é de polarização, como tem acontecido, ela aplica todos os seus esforços aí.  O Brasil tem um histórico bem interessante na relação da imprensa com a política: Samuel Wainer, Chateaubriand, Roberto Marinho, Lacerda, Ari de Carvalho, José Maria Rebello, que faleceu no finalzinho do ano passado, com 94 anos de idade. Ele criou o Binômio, um jornal dedicado, quase exclusivamente, a fazer oposição a Juscelino Kubitschek. 

O historiador Cláudio Bojunga, biógrafo de Juscelino, autor do livro “JK o artista do impossível”, registra: “Juscelino também era bombardeado por um jornaleco chamado O Binômio, precursor da imprensa alternativa, editado por José Maria Rabelo e Euro Arantes, cujo primeiro número saiu no dia 22 de fevereiro de 1952. O nome já era uma gozação do slogan do governador, que eles reescreveram como “sombra e água” fresca, insinuando que concordavam com Oscar Dias Correia em apresentar JK como indolente e gozador da vida(…). José Maria Rabelo diz hoje que O Binômio foi “uma brincadeira que a política levou a sério”. 

Numa das viagens de JK, governador, a Araxá, ele levou, na comitiva, o empresário de jogos e turismo, Joaquim Rolla. O Binômio produziu a manchete: “JK foi a Araxá e levou Rolla”. O secretário de Segurança Pública, Geraldo Vidigal – disse Bojunga, alegou ofensa às tradições morais do povo mineiro e mandou recolher a edição. 

No livro do Bojunga há várias outras menções ao tipo específico de relação da imprensa com a política. Mas, quem quiser ir além disso, pode usar a biografia de Samuel Wainer, “Minha Razão de Viver – Memórias de um Repórter” ou ao “Chatô, o Rei do Brasil”. E muitas outras obras. 

O Presidente Jair Bolsonaro não gosta da imprensa. Hillary Clinton também não. O ex-Presidente Trump, muito menos. Fernando Henrique Cardoso, nem se fala! Lula apanhou muito. Brizola odiava o Sistema Globo de Rádio, jornal e tv e era odiado por ele. Ari de Carvalho, proprietário do jornal O Dia, enquanto viveu,  pintava e bordava com os políticos que não se alinhavam com ele. 

Então, seria razoável dizer que a imprensa, no jogo político, é um agente de oposição. Mas não é bem isso. Ela é um agente político que, por conveniência dos editores e interesse comercial, ou até mesmo por espírito de vingança dos repórteres, pode ser de oposição ou de situação. 

O jornalista Maurício Dias me disse algumas vezes: “Não acredito em liberdade de imprensa, mas em liberdade de expressão e liberdades políticas. Os veículos de comunicação têm interesses políticos, econômicos e comerciais”. Esta declaração está presente também numa longa entrevista que ele concedeu ao Mercado de Notícias, disponível no Youtube.

A política e a imprensa são temas que se misturam e quem faz política precisa conhecer muito bem esta relação se quiser sobreviver com sucesso. Mas, quem faz imprensa no segmento da política também necessita, para não estimular o risco de ser usado. 

No histórico da relação da imprensa com a política existem casos – muitos casos – que mostram o quanto isso acontece. Um bom exemplo é a substituição da Ministra Dorothea Werneck pelo político Francisco Dornelles no Ministério da Indústria e Comércio no governo Fernando Henrique Cardoso. 

O presidente queria a troca, mas não tinha como justificá-la com a Ministra. Então, o jornalista Márcio Moreira Alves ajudou com uma coluna dedicada exclusivamente ao Francisco Dornelles, do título ao ponto final. 

Não se pode encerrar um artigo em que se trate da relação da imprensa com a política sem trazer um caso clássico: Watergate. Dois jornalistas, Bob Woodward e Carl Bernstein levaram um presidente americano à lona – Richard Nixon. A história foi reproduzida num livro do qual se fez um filme, “Todos os homens do presidente”. 

É um clássico de preservação da fonte, que só se soube quem era quando o próprio informante declarou-se muitos anos depois do fato. Um clássico também de investigação realizada pela imprensa. O  informante nunca deu uma informação aos jornalistas, mas pistas, que eles perseguiram na apuração. Sobre o tema é também relevante a leitura de Garganta Profunda, outro clássico sobre a relação da imprensa com a política. 

Por Jackson Vasconcelos

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Rodrigo Pacheco e o “mínimo necessário”

Por mais que eu queira evitar o Estado Brasileiro como tema, menos consigo, estimulado por discursos vazios sobre o assunto, pronunciados por gente que é importante na política brasileira e poderá ser mais relevante ainda no futuro. 

Na quinta-feira (9/12), foi a vez do Senador Rodrigo Pacheco, Presidente do Senado Federal e candidato a Presidente da República por vontade do PSD. Ele fez a abertura do Seminário “Para onde vai o Brasil”, promovido pelo Correio Braziliense. O Seminário ocupou mais de quatro horas do meu tempo, para ouvir considerações de técnicos e políticos sobre o que tem sido o ano e o que poderá ser o próximo. Evidentemente, sentiu-se o calor da campanha presidencial. 

O discurso do Senador Rodrigo Pacheco foi frio, confuso nos conceitos e mineiro demais ao citar os funcionários públicos no contexto em que citou a necessidade de uma reforma administrativa: “Que possa fazer com que o Estado, sem demonizar os funcionários públicos, tenha o tamanho do Estado necessário…”.

Depois disso, o Senador caminhou a trilha de considerações sobre o Estado Brasileiro que, segundo ele, não pode ser o Estado mínimo defendido por alguns, porque sendo mínimo, ele seria egoísta. 

“No Brasil de tantos déficits de inclusão, de educação, de todas as ordens”, disse, literalmente, o Senador, “Seria pensar que o Estado não participasse, por exemplo, de programas sociais para matar a fome, e a fome imediata das pessoas. Isso seria muito egoísta. Precisamos de um Estado necessário para fazer políticas públicas eficientes, priorizando as atividades fins, bem mais do que as atividades meio”. 

O Senador falou 20 minutos e antes de encerrar, pediu: “É fundamental não deixar de ter otimismo e entusiasmo com o Brasil e ter esperança”.  Sim, eu tenho e sou otimista. Mas, afinal, o que é um Estado necessário? Eu entendo, sem ser egoísta, que é o Estado mínimo, para se ter, por exemplo, o mínimo suficiente de funções e estruturas para garantir à população os serviços pelos quais ela paga regiamente. 

Outro exemplo de Estado mínimo necessário seria um Estado onde não se teria, por exemplo, três senadores para cada estado da federação e cada um com dois suplentes. Não bastariam dois por estado e suplentes seriam os que tiveram votos e não foram eleitos? Um bom começo, não?

Artigo publicado no Boletim da Liberdade.

Por Jackson Vasconcelos

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Marqueteiros e ilusionistas

Você é um bom profissional de marketing, de comunicação ou ilusionista?  Se for, estará pronto para o momento, porque está aberta a temporada de caça aos profissionais de campanha. 

A personalidade do candidato que bater à sua porta ou receber de você um convite, dirá que expertise você precisa ter para atendê-lo. Os ilusionistas são os profissionais mais bem pagos deste mercado, e são disputadíssimos. Afinal, numa campanha eleitoral nem tudo que é, pode parecer ser, sob pena de se perder o jogo. 

Há um tipo de candidato que precisa de alguém bom de marketing, para fazer com que o discurso dele (peça essencial numa campanha) caminhe com o gestual, a indumentária, a postura no palco dos debates e da imprensa. Esse candidato tem a necessidade de se converter numa boa embalagem para aquilo que será utilizado no processo de convencer o eleitor. 

O marketing numa eleição não é instrumento de venda, mas de convencimento do eleitor do valor de uma marca ou de um candidato. A embalagem acelera o processo. 

A pirâmide de Brand Dynamics é uma ferramenta para avaliação de uma marca e perseguição de um valor para ela. O relacionamento é o fundamento. Na base, está o fraco relacionamento e no vértice, o forte relacionamento. O desenrolar é feito com os conceitos de presença, relevância, desempenho, vantagem e vínculo. Adaptei à política, os conceitos da pirâmide para usá-la nos projetos de marketing eleitoral:  

  1. Relacionamento: É a relação do candidato com o eleitor.
  2. Presença. O que sei sobre o candidato?
  3. Relevância: O que o candidato me oferece? 
  4. Desempenho: O candidato entrega o que me promete? 
  5. Vantagem: O candidato me oferece algo mais que os demais? 
  6. Vínculo: Estou plenamente identificado com ele. 

Para conseguir escalar esta pirâmide é preciso tempo de convivência do candidato com o eleitor. Aqueles que conseguem mais tempo de exposição positiva levam vantagem. Os que correm o risco de exposição negativa, devem, de bom juízo, manter-se escondidos o maior tempo possível, porque a pirâmide pode ser invertida com os conceitos negativos.

A turma de comunicação é fundamental numa campanha e tem candidato que precisa mais dela do que de gente do marketing. São candidatos capazes de compor e organizar boas propostas, mas intérpretes ruins. Então, alguém precisa ajudá-los nos arranjos, para dar às peças de comunicação: melodia, harmonia, ritmo e cor, também. Neste último quesito, a turma do marketing entra em campo. O processo acontece como se o candidato estivesse ditando um livro para um escriba e o livro precisasse de ilustrações e uma boa capa. O escriba está na comunicação, o pessoal de marketing no resto. 

Chegamos agora aos ilusionistas. Estes são profissionais que cobram caro e merecem o que cobram, porque são comunicadores, marqueteiros e mágicos. Sem a mágica, o jogo deles perde a graça. Assim como os mágicos não servem para entreter quem conhece seus truques. 

Os ilusionistas gastaram tempo e dinheiro para aprender o dom de iludir o cérebro humano. E isso vale muito, gente. Os ilusionistas sabem como chamar a atenção dos eleitores para atos e fatos que tenham o propósito único de esconder outros fatos e atos que, não escondidos, comprometem o resultado do jogo. Os eleitores são levados a ver o que, na verdade, não estão vendo, porque o que estão a ver ou não existe ou existe de outra forma. 

As miragens são campo fora do jogo dos ilusionistas, porque elas podem ser reveladas, quando quem as vê se aproxima delas. Elas são fenômenos da física óptica criados pela diferença de velocidade que a luz adquire em ambientes de propagação diversos. Quando você, no deserto, vê um oásis e se aproxima dele, descobre que, na verdade, a velocidade diferente da luz criou na sua retina uma imagem duplicada e como há sede em você e você sabe que a água funciona como espelho, você acreditou que ali existia água. O bom ilusionista opera tendo o eleitor perto ou o eleitor longe, porque cria ficção. 

Deixei pro final a arte do estrategista, que numa campanha tem o papel de ler corretamente que tipos de candidatos se tem, onde eles são frágeis e fortes e como as forças deles podem ser transformadas em fraquezas ou as fraquezas em fortaleza. Os profissionais de marketing de comunicação e até os ilusionistas definem o candidato. O estrategista define os adversários para saber como eles poderão ser vencidos. 

Boa semana para todos. 

*Artigo publicado no Boletim da Liberdade.

Por Jackson Vasconcelos

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MAIS BRASIL, MENOS BRASÍLIA!

Não gosto – já disse um milhão de vezes – do modo como funciona o Estado Brasileiro, porque ele faz de seus agentes reis absolutistas na relação com a população. O livre-arbítrio, dádiva divina entregue ao ser humano no momento da sua criação, aqui no Brasil lhe foi tomado pelos agentes do Estado Brasileiro. Eles sim, têm livre-arbítrio, para fazerem o que bem entenderem, exista lei ou quando não exista, eles sentem-se bem à vontade para criá-la. 

Na terça-feira, afirmei, novamente, o meu desgosto com o Estado, quando participei de uma entrevista com o deputado estadual Bruno Souza, de Santa Catarina. Ele propõe uma reforma no pacto entre a União e os estados, para que estes possam legislar sobre matérias que só cabem à União. 

A entrevista foi uma iniciativa do Boletim da Liberdade, e dela participaram Juliana Benício e Pedro Rafael. Aspásia Camargo, autoridade técnica e política no tema “Pacto Federativo”, nos deu a honra da assistência e opinou. A primeira vez que eu ouvi falar sobre um novo pacto federativo, com esse nome, foi numa palestra da Aspásia na Fundação Getúlio Vargas. Faz bastante tempo e para mim, portanto, ela é a autora do termo. 

A proposta de um “Pacto Federativo” entrou várias vezes na agenda do Congresso Nacional e todas as vezes teve efeito contrário às pretensões iniciais. No final do caminho, a União alarga os seus tentáculos. Essa queda de braço, sempre vencida pela União, vem de muito tempo. Mas, se ela nada produz a favor dos governadores ou dos prefeitos, menos ainda faz em benefício da população. 

No começo do governo Bolsonaro, o tema voltou abrigado num slogan: “Mais Brasil, Menos Brasília” e embrulhado num pacote onde estavam as propostas de reforma fiscal e reforma administrativa. A proposta de um novo pacto federativo estava na PEC 188. Dizia-se que havia chegado o tempo dos liberais. Em pouco tempo, viu-se que ainda não foi desta vez. 

O slogan “Mais Brasil, Menos Brasília” e as propostas apensadas a ele, assim como o projeto do deputado Bruno Souza, na verdade, transferem o poder das mãos de alguns agentes do Estado para os seus semelhantes nos estados e municípios. O povo continuará sempre onde esteve, à margem das decisões, detentor, unicamente, do direito de escolher quem o representa e, assim mesmo, na dependência da seleção prévia feita pelos partidos. 

Mas, uma repartição de poderes teria alguma vantagem sim, porque acabaria de uma vez com as emendas no orçamento da União, o mal cheiro delas e abriria para os estados uma competência legislativa conjunta com a União, situação que permitirá a criação de leis num ambiente mais próximo de onde vive o cidadão. 

Para defender o slogan e as propostas que fez e deixou morrer, o Ministro Paulo Guedes citou uma frase conhecida do liberal Lord Acton: “O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Foi a maneira que ele, Ministro, encontrou para dizer que o poder absoluto na União abre espaço mais largo à corrupção. Mas, será que pelo simples fato de descer o poder para as mãos dos governadores e prefeitos fará o risco diminuir? 

Ora, Lord Acton pensou a liberdade como um patrimônio do indivíduo e não do Estado, que não pode dela se apropriar a não ser com a concordância voluntária e livre do dono. Lord Acton entendeu que a política é o instrumento que tem o indivíduo para preservar a sua liberdade diante dos riscos de o Estado tomá-la. Por isso, a melhor frase dele, para o contexto, é  “ A liberdade não é um meio para atingir um fim político mais elevado’. A liberdade é o fim político mais elevado”. 

Há uma força jovem com a mesma compreensão do Lord Acton e isso é motivo de se ter esperança. Essa força jovem esteve representada na entrevista, pelo Bruno, Juliana, Pedro Rafael e pela turma do Boletim da Liberdade que organizou o encontro. 

Por Jackson Vasconcelos

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O discurso arrumado do Sérgio Moro

Para quem dedica seu tempo às campanhas eleitorais – meu caso – o discurso do ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro foi um fato relevante. Nele vi o reflexo de uma equipe de profissionais instruídos na escola americana de formar líderes políticos. Mas, sem dúvida, pessoas ainda não totalmente prontas para o ofício ou gente que carrega um candidato difícil de treinar. Afinal de contas, não se encontra um Kennedy ou um Obama em qualquer esquina do mundo. 

Por conta dessa consideração, obrigo-me a iniciar minha leitura pela imagem do ambiente, da plateia e do orador. O ambiente teve a intenção de tirar as cores da bandeira e a própria bandeira nacional das mãos do adversário Jair Bolsonaro. Coisa bem bolada, porque o outro adversário já não poderia mais fazê-lo. Neste ponto, já se anuncia a estratégia de substituir Jair Bolsonaro na disputa com Lula. O discurso, na íntegra, mostrou o propósito. Comentarei adiante. 

A plateia estava bem posicionada e organizada de forma que os treinados puxadores de aplausos ficassem bem colocados e com conhecimento dos movimentos do maestro orador, Sérgio Moro. Embora ele não estivesse confortável com as pausas para aplauso, a plateia treinada entendia o recado. 

O orador, vestido com trajes de um dedicado servidor público ao fim de um dia cansativo de trabalho, funcionou como um robô com pilhas fracas, que fizeram com que, algumas vezes, os braços e as mãos dele não acompanhassem a voz e os olhares para os teleprompters posicionados nas laterais, se perdessem um pouco. As frases de efeito, do tipo, “nenhum cargo vale a alma”, ou “continuar como ministro seria apenas uma farsa” ou, ainda, “tenho família para cuidar”, e mais, “Há brasileiros passando fome. Isso dói em todos nós”, surgiram no texto sem a alma do orador. Deu pro gasto. 

Bem, sigamos para o texto, que buscou, como iniciei dizer, bater forte no Lula e no PT para ocupar o lugar ocupado até aqui pelo adversário Bolsonaro. E fazendo isso, cutucando alguns eleitores do Lula. Uma estratégia que confirma o que eu tenho dito à exaustão: não há terceira via. Quem quiser vencer a eleição presidencial, que ocupe um dos pólos, porque não há eleição em três turnos. 

Sérgio Moro está treinado para expulsar Bolsonaro e buscar os eleitores dele, os atuais e os aborrecidos. Para alcançar o objetivo na arrancada, ele ridicularizou o chavão que marcou os discursos do Lula na presidência: “Nunca antes na história deste país”. Sérgio Moro fez uso dele para referir-se aos saques à Petrobrás, mas criou para si algo bem parecido quando, referindo-se a si próprio declarou: “Ninguém combateu o crime organizado de forma mais vigorosa do que o Ministério da Justiça na nossa gestão”. Eita! 

A leitura do currículo pessoal não dispensou a vaidade e o voluntarismo. Os plurais foram os da “modéstia”, aqueles utilizados pelos arrogantes para uso da imagem de modestos. O “nós”, sem a identificação do outro, quer dizer “eu”. Simples assim. 

Enfim, nada de novo no discurso, nada de novo na apresentação, nada de novo que possa interessar a quem, de fato, acredite que o Estado Brasileiro precisa mudar a ponto de levar seus agentes à compreensão de que não prestam favores nem merecem cultos à própria personalidade. O Estado e seus agentes existem para garantir os direitos que a cidadania por si própria conquistou. 

Boa semana para todos. 

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Cara ou Coroa

As eleições no Brasil são, para os eleitores, um jogo de cara ou coroa. Essa história de cara ou coroa veio do império, quando as moedas, de um lado, tinham a imagem da Coroa e de outro a esfinge do Imperador. Caíssem como caíssem, o Estado vencia.  

Fazer as escolhas certas no tempo das eleições é jogo de cara ou coroa, porque o Estado inconveniente será sempre vencedor. Faz tempo, tempo mesmo, que nas disputas para a Presidência da República não aparece alguém que defenda um Estado conveniente, aquele que o autor de “A Desobediência Civil”, Henry Thoreau, define como um governo que permite a realização de coisas que possam ser úteis e satisfatórias para a vida comum. 

Até aqui, tudo me leva a crer que teremos muitos candidatos à Presidência da República. Dois, três, quatro, dez ou quinze, quem sabe? Mas, já se vê que quando o Estado e seus agentes são a referência, não existe diferença entre o que desejam os candidatos apresentados até hoje. Eles falam uns dos outros, prometem derrotar seus adversários e sacam frases de efeito, sem que um só que seja, apresente uma proposta factível para cortar os braços fortes do Estado Brasileiro. 

Nós que queremos um Estado submetido à vontade do povo brasileiro, somos como os apostadores nas loterias, que fazem suas apostas no mundo real e gastam os prêmios num exercício de imaginação. Assim que entregam suas apostas, eles, em sonho, deixam de trabalhar, compram fazendas, realizam viagens inesquecíveis e ajudam os parentes. Sorteados os números, voltam à estaca zero, quando poucos felizardos levam o prêmio pelo qual todos os apostadores pagaram.  

Em 2018, acreditamos que teria chegado a vez de colocar o Estado Brasileiro no devido lugar. Fizemos planos para uma situação em que o peso sobre os nossos ombros seria menor. No entanto, os tentáculos dos agentes do Estado tornaram-se mais fortes e a pandemia encheu de razão os interventores.  

Retorno a Henry D. Thoreau, para retirar duas citações do livro dele, citado antes, de absoluta serventia para o povo brasileiro, mesmo tendo a obra surgido como crítica à guerra dos Estados Unidos com o México e à escravidão. Com elas encerrarei.  

A primeira autoriza a desobediência civil como reação natural à tirania: “Todos os homens reconhecem o direito de revolução; isto é, o direito de recusar obediência ao governo, e de resistir a ele, quando sua tirania ou sua ineficiência são grandes e intoleráveis”.  Que tal? Quem topa? Certamente, poucos, porque conhecem bem até que ponto estão dispostos a ir os agentes do Estado em defesa de seus privilégios. 

O segundo trecho dá uma lição aos acomodados: “Qual a cotação de um homem honesto e de um patriota? Eles existem e lamentam a tirania e às vezes até suplicam, mas não fazem nada sério que seja eficaz. Esperam bem dispostos que outros remediem o mal para que eles não precisem mais lamentar. O máximo que fazem quando a oportunidade lhes passa perto é dar-lhe um voto barato, mostrando-lhe uma expressão débil, desejando-lhe felicidade. Há 999 defensores da virtude para cada pessoa virtuosa”. 

Peço licença ao filósofo para adaptar a frase e dizer que, certamente, para cada 999 defensores da revisão do modelo de Estado forte e rebelde, há um que, de fato, esteja disposto a implementá-la. 

Boa semana a todos.

Artigo publicado no Boletim da Liberdade.

Por Jackson Vasconcelos